Olhando do Alto
por: Abílio Teixeira de Aguiar

         “Tenho grande amor à terra fluminense. Olho-a com emoção quando, pelas manhãs, sejam frias ou mornas; claras ou enevoadas, distendo a visão enamorada sobre seu casario, sua ruas graciosas, suas praças modestas, mas ricas de poesia.

Conheci Meriti quando menina modesta, de vestidos pobres, de pé no chão, recatada e modesta, já lá vão quarenta anos. E, andando a locomotiva do Tempo, a visão da cidade garbosa se foi ampliando, ganhando novos tons, apresentando novas cores...

           E hoje, tantos anos de caminhada, dona de seus destinos, São João de Meriti se ergue imponente, senhorial, embora não haja perdido – E Deus queira jamais perca! – o traço poético de sua anatomia, nem a beleza pura do seu céu, mormente à noite, quando as estrelas, como garotas colegiais, vêm dar seu passeio no espaço.

         São João de Meriti tem, vale dizer, muitos namorados de sua graça que, como eu, a trazem no coração e se envaidecem a proclamá-la uma das cidades mais bonitas e graciosas do Rio que é, como ninguém contesta, um Estado milionário de cidades formosas, ricas e senhoriais a dar azas ao Turismo.

          Olhando do Alto, pois, é que vejo Meriti. É que lhe observo as graças naturais. É que admiro o dinamismo da sua gente, de seus filhos árdegos na faina de torná-la mais próspera e sinto que o calor da gleba não diminui, que nada a faz parar na sua ânsia de crescer, de agigantar-se, de conquistar seu lugar entre as maiores frações da Velha Província...”

                                                                                                                                                                                                                                                        ("Gente Nossa", 1976).


A História do Relógio da Igreja Matriz de São João de Meriti



Em 16 de fevereiro de 1951 Frei Erasmo Cleven assume a Igreja da Matriz, substituindo Frei Paulino, que permanecera de 25 de janeiro de 1948, até 13 de fevereiro daquele mesmo ano. Dá início a uma série de reformas na Igreja Matriz, com a participação dos membros da Congregação Mariana, formada, na ocasião, por quase duzentos voluntários. Havia um sentimento de orgulho da terra, de autoestima. (sentimento retratado por Abilio Teixeira de Aguiar em "Olhando do Alto"). O novo projeto de reforma da Igreja incluía a ousada construção de uma segunda “Nave” (Torre), na qual seria instalado o Relógio da Matriz, com suas quatro faces voltadas para o município. Frei Erasmo permaneceu na paróquia até o dia primeiro de janeiro de 1959, sendo substituído por Frei João Bosco.

 

A imagem a esquerda mostra desfile cívico realizado pelo Educandário São João Batista, por volta de 1950, tendo à frente o então diretor, senhor Plácido Figueiredo, que se tornaria prefeito da cidade naquela mesma década. A arquitetura da igreja apresenta ainda as características da sua inauguração. Ampliando a foto é possível observar com mais detalhes os andaimes instalados na lateral da Igreja. Iniciava-se ai o projeto de reforma, que culminaria com a instalação do relógio da Matriz; tornando-se um  ícone para toda cidade, cujo recenseamento daquele mesmo ano acusava a soma de 60.000 habitantes.

<<< veja a imagem ampliada.
Igreja da Matriz, ano de 2015 Assista as primeiras imagens registradas no interior do Relógio da Matriz





Pia Batismal da Igreja Matriz de São João Batista
- A Importância Histórica -



Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu no palácio de São Cristovão, na cidade do Rio de Janeiro, em 1846. Filha de D. Pedro II tornou-se herdeira do trono brasileiro e passou para a história do Brasil como a responsável pela Lei Áurea, que aboliu a escravidão, em 13 de maio de 1888. Por volta do ano de 1875 participa da construção da capela de São João Batista, doando alguns castiçais e a Pia Batismal; a mesma que poder ser vista no interior da atual Matriz.
Após a queda da monarquia e a Proclamação da República (15 de novembro de 1889), foi morar na Europa com a família real, falecendo na França, em 1921. 
A construção da Igreja de São João Batista começou por volta de 1875, nas terras doadas pela família Tavares Guerra, que se estendiam até os limites da atual Avenida Doutor. Arruda Negreiros.
Contribuíram também com a construção outras famílias tradicionais da cidade, como os Telles de Menezes, Alves Carneiro, entre outras.
Não foi possível encontrar documentos, referentes a este período da história. O mais antigo livro de registro de batismo existente é o identificado como "VI - 1927 a 1928".
Em "Memória Histórica de São João de Meriti", Arlindo de Medeiros relata um incêndio ocorrido em 1916, quando vários documentos desapareceram. E em um segundo de 1948, como mostra a edição do  o jornal "O Fluminense", de 1983.
José do Patrocínio era filho de uma escrava alforriada. Dedicou a sua vida à causa abolicionista. Jornalista fundador do jornal “Cidade do Rio” e da Academia Brasileira de Letras. Em sua visita a Meriti doou a vultosa soma de 30 contos de reis, para a construção da capela.
Para ser ter idéia do valor doado, os registros históricos mostram que, por volta do ano de 1870, com 1 conto de réis comprava-se 1 kilo  de ouro.

José do Patrocínio era pessoa de confiança e muito próximo à Princesa Isabel; gozava da simpatia e favores da coroa, sendo bastante provável que, assim com fez com a pia batismal tenha também intermediado a doação de tal quantia.


Segundo a senhora Maria Garcia, hoje aos 83 anos de idade, moradora do município e integrante da Congregação Mariana da Paróquia, com serviço voluntário prestado por mais de 60 anos, a Pia Batismal era originalmente composta de uma tampa oval, em aço inoxidável, apoiada sobre o bojo superior, podendo ser retirada ou  aberta apenas uma das metades, que embutia para debaixo da outra, acompanhando assim a divisão do círculo interior da pia. Seu destino é desconhecido e a mesma senhora acredita ter sido perdida, danificada em uma das reformas realizadas, ou até mesmo ter sofrido desgaste natural pela ação do tempo. Na imagem a direita é possível notar pequenos pontos de fixação, na borda superior da Pia Batismal.
Tal fato pode ter induzido alguns estudiosos a levantarem a hipótese de não ser tratar da mesma peça doada em 1875. Contudo, há unanimidade entre os representantes da paróquia, ao afirmarem a autenticidade da relíquia.


O Significado Simbólico


O Batismo é realizado no degrau em nível inferior, simbolizando a imersão.




O Símbolo Batismal mais importante é a agua, o começo da Vida Espiritual. É considerado o primeiro Sacramento, onde a cabeça da criança é molhada três vezes, em nome da Santissíma Trindade.
Frei Luiz Colossi


Considerações Finais


         Aos moldes das cidades brasileiras, São João de Meriti cresceu  em torno da igreja e a partir dela o município desenvolveria a sua vida econômica e social. O padre era figura reconhecida e privilegiada na sociedade e assumia o papel do pastor que iria “guiar o rebanho”.

         A influência da igreja no cotidiano da população se dava de forma marcante. Relatam antigos moradores que havia um feriado espontâneo no dia do padroeiro e todo o comércio fechava as portas para acompanhar a procissão. Criava-se assim o apego as coisas da terra; o sentimento de grupo, de orgulho, pela participação na sua formação.

         Ao longo da nossa história, grandes nomes se destacaram na luta pelo desenvolvimento da cidade e por melhorias das condições de vida no município; verdadeiros “apaixonados” pela terra que os acolheu.

       Alguns destes antigos moradores ainda podem ser vistos caminhando anonimamente pelas ruas da cidade e carregam com eles o testemunho vivo da história que ajudaram a criar. Verdadeiros arquivos em trânsito, cujos registros tendem a ser perdidos com o passar dos tempos, privando as futuras gerações do conhecimento e do testemunho dos criadores e personagens da história que pertence a todos nós.

       Há nas paredes da Igreja de São João Batista 150 anos de história, encobertos pelas sucessivas camadas de tinta, pelo desinteresse dos nossos dirigentes e pelo esquecimento de grande parte da população.

      De fato, São João de Meriti desconhece a própria história. Muitos documentos foram perdidos, outros podem estar em mãos daqueles que não reconhecem a sua importância, esquecidos no fundo de uma gaveta ou de colecionadores, que guardam para si, como se fossem objeto qualquer de grande valor, contribuindo assim para a perpetuação da doença do descaso.
A longo prazo, a prática de substituições sucessivas dos titulares das paróquias contribuiu para o enfraquecimento do elo afetivo com a população, promovendo também a descontinuidade do trabalho necessário de preservar e catalogar toda a documentação.

       A história não tem dono e a todo seu povo pertence. Este conhecimento precisa ser compartilhado, para que cada um possa conhecer e entender o valor e a grandeza das suas origens. Espelhar-se nos exemplos do passado, assimilar a consciência de identidade cultural, de valorização e preservação do solo onde nasceu e de onde viu brilhar os seus primeiros raios do sol.

                                                                                                                                                                               São João de Meriti, 05 de fevereiro de 2015.  Redação Meritionline.

*Agradecimentos a todos, que direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho.


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